CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 MELHOR VITELO DO QUE CRIANÇA
Publicado em: 20/09/2018
Do fundo das nossas ideias feitas, são mães a tempo inteiro porque não têm talento para mais nada, não têm hipótese de prosseguir uma carreira, falta-lhes ambição ou não passam de umas pobres vítimas oprimidas.

"Se uma mulher ficar em casa a tomar conta de uma vaca conta para o PIB, mas se ficar com um filho não representa qualquer valor acrescentado." A constatação fê-la há muitos anos Bagão Félix, em jeito de brincadeira, mas para sublinhar uma realidade muito importante: na prática, a sociedade, ou seja, todos nós, valorizamos pouco ou nada os pais e as mães que decidem que a sua profissão é assumir o cuidado integral dos seus filhos pequenos.

Na prática, do fundo dos nossos preconceitos, não trabalham. Ficam em casa, assumindo-se este ficar em casa como umas férias prolongadas, como só quem nunca ficou com uma ou mais crianças pequenas 24 horas sobre 24 horas pode presumir. Do fundo das nossas ideias feitas, são mães a tempo inteiro porque não têm talento para mais nada, não têm hipótese de prosseguir uma carreira, falta-lhes ambição ou não passam de umas pobres vítimas oprimidas que imaginam que o lugar das mulheres (porque são sobretudo elas que ficam) é em casa. E, invariavelmente, temos a certeza de que votam à direita, possuem uma conta bancária choruda ou um marido rico e são umas "dondocas", como se a maioria não tivesse de prescindir de muita coisa que o conforto económico de um ordenado ao fim do mês acaba por trazer (mesmo descontando o que se paga por uma ama ou uma creche).

Do valor que estes pais acrescentam aos filhos ninguém fala, mas não há psicólogo do mundo que não garanta os benefícios imensos que representa a curto, a médio e a longo prazo. Benefícios para as próprias crianças, que ganham em terem nos pais ou familiares próximos os seus principais cuidadores, mas também para a sociedade que poupa em cuidados de saúde (as crianças em creches adoecem mais, e a amamentação prolongada, por exemplo, protege-as), e investe em futuros cidadãos provavelmente emocionalmente mais estáveis e menos stressados.

Mas porque esse valor não é convertível em euros, como o do vitelo que quando estiver bem gordinho e saudável se vende numa feira de gado, não era inteligente que o assumíssemos e valorizássemos, protegendo esta opção - e atenção, porque é fundamental que seja uma opção? No mínimo, pelo menos tanto quanto valorizamos o trabalho de uma educadora de infância numa creche ou jardim de infância? Até porque, bem vistas as coisas, estas mães aliviam também o bolso do contribuinte, já que o Estado, mesmo que de forma insuficiente, lá vai subsidiando a guarda destas crianças quando os pais trabalham.

Contudo, não só não o fazemos, como o "tema" é silenciado por medo de culpabilizar as mulheres que não querem abdicar da sua profissão para serem mães a tempo inteiro, e eu estou à vontade para falar delas porque pertenço a essa categoria, ou se veem obrigadas a ter um emprego fora por uma questão de sobrevivência económica.

Pior, quando se anunciam medidas de proteção à família, e já agora de incentivo à natalidade, fala-se invariavelmente dos pais e mães empregados por conta de outrem. Esses têm direito, e muito bem, a licenças de maternidade e paternidade e subsídios vários, dias para assistência à família, mas se uma mulher não está empregada ou no fundo de desemprego no momento do nascimento de um filho, tanto quanto consigo descortinar, não recebe qualquer forma de apoio económico. Zero. Com a agravante de que não descontando para a Segurança Social, não terá igualmente subsídio de doença ou, mais tarde, uma pensão.

E, no entanto, ela trabalha, um trabalho que supera em muito as 35 horas do mundo laboral regulamentado, e na realidade faz viver uma empresa familiar. Se calhar, era tempo de tornar mais fácil a vida das crianças, nem que seja por oposição à dos vitelos.