CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 O TERROR DE PARAR
Publicado em: 30/01/2019
Num tempo de nómadas, parar assusta. Temos medo de que se nos esquecermos do mundo, ele se esqueça de nós. A contragosto, cedo demais, voltamos à estrada...

Temos um terror de parar. Parar, no sentido literal do termo. De ficar no mesmo sítio, numa espécie de clausura.

Terror do que aconteceria se cedêssemos à vontade de atirar fora a agenda, e até o emprego, de fechar os olhos às obrigações de estar aqui ou ali aquela hora, de responder aos e-mails num prazo razoável, de organizar a família, de aceitar convites "porque tem de ser", medo de não nos deitarmos a uma hora sensata porque no outro dia é preciso acordar cedo - mesmo que o "preciso", seja ditado apenas pela culpa que nos provoca a ideia de nos tornarmos criaturas indolentes.

Temos terror de imaginar como usaríamos o tempo, se nos pertencesse integralmente, um medo secreto de que se deixássemos de cuidar dos outros, nem que fosse por um bocadinho, eles deixariam de cuidar de nós... para sempre. De que se nos desligássemos do mundo, ele também rapidamente nos esqueceria.

Temos terror mas, simultaneamente, fascínio. O que sucederia se um dia não saíssemos da cama, não um ficar na cama deprimido e apático, mas transformando-o no "cockpit" de uma experiência, rodeados dos nossos livros, de um computador com internet e, claro, de uma tablete de chocolate do tamanho da Ponte Vasco da Gama? Fartávamo-nos depressa, como nos garantiam as nossas mães quando na adolescência descobrimos o prazer de dormir até tarde ou, pelo contrário, habituávamo-nos a este escritório alternativo, silencioso e almofadado a penas de pato?

E se fosse ao contrário, se nunca nos deitássemos, dias e dias a fio, a consumir séries e filmes, a tricotar um cachecol sem fim, ou a pintar e desenhar frente a uma lareira perpetuamente acesa, ignorando tudo, desde os telefonemas do escritório aos apelos dos nossos filhos que clamavam por atenção?

É a aparente inação que assusta. É o ficar dentro de casa, ou do quarto, que aflige, porque pressentimos como é desprezado. "Estás outra vez em clausura?", dizem-nos com indisfarçável ironia, levando-nos a acreditar que é sinónimo de um terreno árido e sem fruto. Os ermitas não estão na moda.

Veneram-se antes os nómadas, aqueles que partem de mochila a correr mundo, endeusam-se os viajantes que procuram no oriente exótico bálsamo para a alma, adrenalina no safari em África, ou cultura num voo "low-cost" para uma capital qualquer. Desde que seja em movimento, ninguém se preocupa. Nem mesmo nós.

E é assim que o terror ganha ao fascínio, e as viagens por fora às viagens por dentro. Por isso só nos atrevemos a interromper por momentos as rotinas, os laços e os nós das nossas relações com os outros. Com esforço permitimo-nos umas clareiras em que fechamos os ouvidos ao grilo que nos manda voltar à estrada. Clareiras minúsculas, que envergonhadamente assumimos, e de que fugimos antes que lhes tomemos o gosto. Dizemos a nós mesmos que só sabem tão bem porque são momentos tão raros. Mas ficamos sempre na dúvida. O que aconteceria se nunca acabassem?

Jornalista