CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 DESCUBRA SE É UM “SLACKER” OU UM “STAKHANOVITE”
Publicado em: 22/07/2020
Inventaram Zoom atrás de Zoom, reuniões virtuais a que os “Slackers” escaparam como puderam, e os pobres “Stakhanovites” gramaram, fazendo os possíveis por pôr o dedo no ar e intervir o máximo de vezes possíveis, mesmo quando não tinham nada para dizer.

Para quem lê regularmente a Economist, e não perde Bartleby, a coluna de opinião sobre gestão e trabalho da autoria de Philip Coggan, este texto não vai trazer novidades, mas não resisti a escrevê-lo pensando em todos os que ficariam privados da análise que fez do teletrabalho durante a pandemia. Aquele que, para muitos, nem as férias interromperam completamente.

O seu texto de 11 de julho, começa por falar da Lei de Parkinson. Este Parkinson, era um historiador naval, que num ensaio publicado em 1955, postulou que o "Trabalho expande sempre de forma a preencher o tempo disponível designado para o completar." Ou seja, com mais tempo disponível o trabalhador vai demorar mais horas a completar uma mesma tarefa em lugar de executar mais tarefas, como seria previsível à primeira vista.

Esta sua verdade pretendia defender que o crescimento exponencial da administração pública norte americana conduzia a mais burocracia e não a maior eficiência. E além disso, explica Bartleby, o senhor Parkinson constatava que os chefes querem multiplicar subordinados para não criar rivais, e por isso contratam sempre dois, em lugar de apenas um, como seria necessário. E, claro, com dois subordinados vai também gastar muito tempo a, por um lado, inventar-lhes o que fazer para se sentir útil, e por outro, a supervisionar o cumprimento das suas ordens.

Mas o mais divertido nesta crónica de Bartleby é a tentativa de atualizar esta lei de Parkinson ao novo mundo da pandemia, mais propriamente ao teletrabalho a que tanta gente foi remetida durante o confinamento obrigatório. Ora, argumenta o cronista, se em tempos de trabalho pré-covid, os empregados já conheciam todos os truques para estender a tarefa o máximo de tempo possível - evitando assim que lhes fosse dada uma outra, mais chata ainda -, e os chefes dominavam na perfeição a arte de se fazerem passar por imprescindíveis, agora tudo mudou.

Em casa, longe da vista dos superiores e dos colegas, os trabalhadores dividiram-se em duas fações, argumenta. O primeiro grupo, a que chama de "Slackers" (Baldas), passaram a trabalhar apenas o suficiente para cumprir os mínimos exigidos. Em lugar de fazerem render a tarefa das nove às cinco, despachavam-na o mais rapidamente possível, mas só a entregavam no limite, aproveitando o resto do tempo para irem à sua vida. Ou seja, a Lei de Parkinson atualizada deveria rezar qualquer coisa como "Para os despreocupados, desde que não estejam a ser vigiados, o trabalho encolhe para preencher o tempo requerido".

O segundo grupo, batizado de "Stakhanovites" - o nome de um mineiro soviético considerado herói do trabalho socialista -, é constituído por gente culpada, ansiosa, receosa de perder o emprego ou muito ambiciosa, e que teletrabalhou como se não houvesse amanhã. Para esses a Lei de Parkinson devia dizer: "O trabalho expande até preencher todas as horas desde que acordam até que vão dormir".

Como Parkinson, também Bartleby não poupa os chefes e gestores do trabalho alheio: cheios de medo que alguém pensasse que, afinal, eram dispensáveis, trataram de substituir o hábito de atravessar o escritório a falar alto, parando aqui e ali para tocar duas palavras com um empregado e descortinaram uma forma de fazerem sentir a sua presença virtualmente. Ou seja, inventaram Zoom atrás de Zoom, reuniões virtuais a que os "Slackers" escaparam como puderam, e os pobres "Stakhanovites" gramaram, fazendo os possíveis por pôr o dedo no ar e intervir o máximo de vezes possíveis, mesmo quando não tinham nada para dizer.