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JUN
6
 
 «OS NETOS SÃO O MELHOR ANTI-RUGAS QUE EXISTE»
Há quem diga que ser avó ou avô é como ser mãe ou pai duas vezes. E talvez hoje, mais do que nunca, isso seja verdade. Envelhece-se mais tarde e são cada vez mais os avós que ainda trabalham, mantém-se ativos e estão capazes de aguentar as brincadeiras mais enérgicas das crianças, desempenhando um papel muito presente na educação dos netos. Estima-se que, com a crise económica dos últimos anos, 30 por cento das famílias portuguesas recebam apoio financeiro dos mais velhos. Estão lá para servir de exemplo, para relativizar ou impor regras, para ensinar a cozinhar ou passar férias quando os pais não podem. Falámos com cinco avós conhecidos, cinco experiências diferentes, para perceber, afinal, como são os avós de hoje.

A AVÓ DOS LIVROS

«Os netos são o melhor anti-rugas que existe. Em vez de recomendar cremes, eu recomendo netos.» A escritora Isabel Stilwell, 57 anos, tem seis netos (três biológicos e três dos enteados). As três miúdas da filha Ana estão a construir uma cabana imaginária, com paus, no jardim da casa da avó, em São Pedro de Sintra. As gémeas Madalena e Carminho, 6 anos, levam o empreendimento mais a sério. A mais pequena, Marta, com 2 anos, não está para aí virada, prefere as flores. É ao livre, ao sol, que as netas passam grande parte do tempo. Durante a semana, pelo menos duas vezes, vêm para cá. Às vezes, mais.

Isabel é uma avó presente sem exigir espaço, uma dinâmica conquistada com o tempo e com a experiência. «Falo com imensos avós e entendo que o mais difícil é percebermos que não somos pais, somos a retaguarda. É um choque. Quando vamos à maternidade e vemos os bebés, podíamos trazê-los para casa. Nós já sabemos qual é o sentimento, é só recordar. É como andar de bicicleta. Mas não é o nosso papel.»

Ser avó despertou na escritora e jornalista um olhar renovado sobre os pormenores que escapavam na correria do dia-a-dia. «Olhar para um pombo e perceber-lhe os detalhes, dedicar-lhes o tempo que for preciso, é uma aprendizagem também para nós». A disponibilidade também é outra. «Fui mãe aos 23, 26 e 30 anos. Ao mesmo tempo estava a trabalhar e a construir uma carreira. Conjugar tudo é um desafio enorme – principalmente para as mulheres».

Ainda que não sejam os educadores dos netos, os avós têm um papel determinante – incluindo na relação com os próprios filhos. «O Eduardo Sá disse uma coisa que eu retive: não podemos desistir de educar os nossos filhos, mesmo que já sejam pais. Compete-nos não refilar pelos cantos, não falar em frente às crianças – que elas ouvem tudo – mas ter a coragem de olhá-los nos olhos e dizer-lhes que há coisas que precisam ser revistas.»

Entre um abraço e outro e um jogo de bola, as netas despedem-se com beijos. A casa ficou mais silenciosa, mas a presença delas está por todo o lado. Na camarata dedicada exclusivamente aos netos, nos brinquedos espalhados ou nos desenhos de rainhas pendurados na parede que ajudam Isabel quando está a escrever romances históricos.