CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 A BRINCAR DESCOBRIMOS A NOSSA PERSONALIDADE (E NÃO SÓ)
Publicado em: 06/01/2026
Mãe, sabe qual pode ser um dos recreios mais importantes para os adultos? A intimidade, através da sexualidade.


Querida Ana,

Escrevo-te nestes primeiros dias do ano para te assegurar que sobrevivi às festas, mas que se me vires na rua talvez não me reconheças porque, graças ao talento para cabeleireira da tua filha Marta e de uma amiga, tenho agora o cabelo com madeixas cor-de-rosa e cor de laranja! Não te digo que os netos rejuvenescem os avós?

Mas deixo-te uma outra reflexão profunda — quando hoje estava a arrumar os meus brinquedos, com que me entretive com os mais pequeninos, tomei consciência de que para muitos adultos “pôr as coisas em ordem” pode ser o único pretexto que têm para brincar. Conversei imenso com a Princesa Ervilha enquanto lhe refazia a cama de sete colchões, brinquei com o urso cozinheiro que vive obcecado com a limpeza das suas panelas, embalei os ratinhos antes de os aconchegar de novo na caixa de fósforos, agradeci à senhora-coelha-enfermeira o tratamento que deu aos bebés coelhinhos e estive a preparar a tenda de campanha para uma aventura dos ouriços adolescentes — e foi tão bom, tão repousante.

Talvez para muitos adultos os telemóveis sejam o único recreio possível, em que escondidos sob uma capa de “trabalho” podem deixar a cabeça viajar. Talvez por isso fiquem tão dependentes, tão depressa. Sugiro que, sem vergonha, tenham ou não filhos ou sobrinhos, comprem o comboio elétrico que nunca tiveram ou uma boneca para vestir e despir, ao contrário daquela que ficava em cima do armário porque era demasiado bonita para se estragar, como, Ana, juro-te que vi acontecer a muitas das minhas amigas.

Bom Ano, Ana, e obrigada por me teres dado netos que me voltaram a ensinar a brincar.

***

Querida Mãe,

Bom Ano!! Ainda bem que sobreviveu às festas e, acima de tudo, obrigada por continuar a ser "a casa" onde nos reunimos todos. Quando for grande, quero definitivamente ser como a mãe, capaz de ser a cola de toda a família e amigos. Sei que é um cansaço enorme e pode parecer que já nem damos valor ao que fazem, mas damos! E adoramos voltar a ser um pouco crianças nessa nossa casa.

Em relação a brincar, concordo a cem por cento — já falámos tantas vezes nestas Birras sobre a importância do brincar para o desenvolvimento das crianças, mas, se calhar, não fui clara em relação a como é fundamental continuarmos a brincar pela vida fora. O grande pedagogo Winnicott, dizia que "é no brincar, e apenas no brincar, que o indivíduo — criança ou adulto — é capaz de ser criativo e de usar toda a sua personalidade."

Brincar é diferente de jogar, que ainda aceitamos aos adultos, porque é feito apenas e só pelo prazer, é livre, sem objetivos utilitários e sem regras pré-definidas. Mas, mãe, agora é aqui que a minha carta vai fazer um desvio inesperado. É que sabe qual pode ser um dos recreios mais importantes para os adultos? A intimidade, através da sexualidade. Ou seja, os casais deviam continuar a ter pelo menos um espaço livre, seguro, onde podem ser criativos e exprimir o seu ser mais autêntico, onde podem explorar e crescer. Segundo o sexólogo Alex Comfort, uma figura central na revolução sexual da década de 70 e autor de um livro chamado “The Joy of Sex” (que tem a estrutura de um livro de culinária), a sexualidade adulta, principalmente numa relação longa e saudável, seria o palco perfeito para os adultos. A vergonha, a dificuldade de comunicação, a pressão do dia a dia, os efeitos secundários dos medicamentos, a falta de conhecimento e aceitação do nosso corpo e as disparidades de libidos, são tudo obstáculos, tornando demasiadas vezes as relações sexuais numa obrigação. No máximo, uma forma de libertação de tensão. Mas, se calhar, podemos voltar a olhar para a sexualidade (que é muito mais do que o acto em si), como este espaço e, lentamente, encontrarmos a coragem de nos irmos abrindo a estas possibilidades, lembrando que para brincar com outra pessoa é preciso sempre um enorme respeito mútuo, mas também perder o medo de mostrar as nossas vulnerabilidades.

Por tudo isto, espero que, em 2026, os leitores das nossas birras não desistam de brincar.


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