CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 QUEM SE LEMBRA DE GUNGUNHANA?
Publicado em: 07/01/2026
Maduro merece e torna a merecer ser julgado e pagar pelos seus crimes; a Venezuela tem o direito de viver em democracia e usufruir da sua riqueza, mas não podemos admitir que um país estrangeiro assuma governá-lo, afirmando que lhe dará as migalhas do que rouba para si.


Enquanto as televisões passam, em contínuo, fotografias do ditador Maduro de mãos atadas e olhos vendados, cabisbaixo e humilhado, exibido em primeira-mão pelo Presidente dos EUA como troféu de guerra, só me vem à memória as ilustrações de Gungunhana no meu livro da 4.ª classe, capturado por Mouzinho de Albuquerque. O último rei da dinastia Jamine, imperador de Gaza, um território que agora faz parte de Moçambique, foi exibido no início de 1896 pelas ruas de Lisboa como se fosse um urso numa gaiola do circo e, nos anos 60, ainda constava entre os grandes feitos de um Portugal colonialista que as crianças deviam aprender.

Na Nova Iorque do século XXI, também os jornalistas e a populaça correram à prisão de Manhattan, tal como então os lisboetas e gente vinda de todo o país rodearam a fortaleza de Monsanto, onde a “fera cruel”, o “régulo sanguinário” estava detido, tornando o lugar tão popular que até houve quem abrisse barraquinhas de comes e bebes, como aliás já sucede nos arrabaldes do tribunal onde Nicolás Maduro, a mulher e o filho estão a ser julgados.

Não me interpretem mal, por favor não me interpretem mal — a semelhança que me choca não é entre o miserável e cleptómano Maduro, e o infeliz rei africano, despojado do seu reino, mas aquela que une os captores de um e de outro. O que me escandaliza é o facto de, com a maior impunidade e gabarolice, Donald Trump e os seus muchachos recorrerem aos mesmos métodos imperialistas, à mesma linguagem, de há século e meio. O que me choca é a falta de vergonha com que se declaram donos do mundo, das riquezas alheias, e se arrogam o direito de governar o país dos outros. Marco Rubio declarou, com toda a desfaçatez, que a intervenção americana “terá em conta o interesse nacional dos EUA, que está obviamente em primeiro lugar, mas também pretende um futuro melhor para o povo da Venezuela”. Nestes últimos dias repetiram que, afinal, a tarefa de “Make America Great” incluía todos os países daquele continente. Mouzinho de Albuquerque não diria melhor, mas imaginava que duas grandes guerras, a instituição das Nações Unidas, o consenso em torno do direito internacional e a tragédia da invasão Russa da Ucrânia tivessem feito avançar o mundo — ingenuidade minha.

Maduro merece e torna a merecer ser julgado e pagar pelos seus crimes; a Venezuela tem o direito de viver em democracia, e usufruir da sua riqueza, mas não podemos admitir que um país estrangeiro assuma governá-lo, afirmando que lhe dará as migalhas do que rouba para si. Mas nada disto parece ter verdadeiramente acordado os líderes europeus, portugueses incluídos, que continuam a lamber as botas a um lunático e aos seus cruzados, sem darem um exemplo de determinação de que todos precisamos, porque, afinal, a coragem também se contagia. Maria Corina julgou que lhe bastava bajular Trump, dedicar-lhe o Prémio Nobel, e cair na esparrela de aceitar a boleia norte-americana para fora do seu país, onde poderia, agora, liderar a oposição, e o tiro saiu-lhe pela culatra. Como nos vai sair a todos.

Enquanto isto, faz-se negócio, tal como aconteceu com Gungunhana — em lugar de coleção de postais do rei e das suas mulheres, já estão à venda sweatshirts com a fotografia de Maduro algemado, e certamente vão abrir casas de petiscos “Maduro” (a “Gungunhana” era no Areeiro), bolachas com o nome do ditador (as de Gungunhana foram o sucesso da fábrica da Pampulha), e até canecas como a que Bordalo desenhou de um selvagem bêbado. Que tristeza e falta de memória.

P.S. Com tudo isto, descobri o podcast “Gungunhana – Quando Portugal raptou um rei”, da Sara de Melo Rocha, rigoroso e emotivo, oito episódios que valem bem a pena escutar.