BIOGRAFIA
•
LIVROS
•
PRESS
•
ALBUNS
•
AGENDA
•
DIAS DO AVESSO
•
CRÓNICAS E ENTREVISTAS
•
CONTACTOS
CRÓNICAS E ENTREVISTAS
BOICOTE AO MUNDIAL DE FUTEBOL NOS EUA
Publicado em: 20/01/2026
Como é que é possível que um acontecimento desta magnitude, que segundo leio no site da FIFA está destinado “a celebrar a união dos povos na sua diversidade”, decorra num país que bloqueia as fronteiras a cidadãos de perto de 40 países, entre os quais alguns dos já apurados para a final, e acabe de proibir a imigração dos nacionais de outros 75, entre os quais o Brasil?
Setenta e cinco por cento dos jogos do Mundial vão disputar-se num país que nega a entrada a nacionais de mais de cem nações. Cartão vermelho para quem ficar calado.
Farta das barbaridades de Trump e da sua trupe, que têm o condão de me revolver o estômago e roubar preciosas horas de sono, e na ressaca das nossas eleições presidenciais, estranhei a animação no café cá do sítio, até perceber que aquilo com que os meus conterrâneos estão realmente empolgados é com a perspetiva de dedicarem os próximos meses ao campeonato do mundo de futebol que, como toda a gente sabe, empolga mais do que qualquer outra coisa o patriotismo nacional.
Por instantes, pensei que era desta vez que ia finalmente aprender o que é um “fora de jogo” e alienar-me na cerveja, que detesto, mas um baque inesperado tirou-me o fôlego. Então não é que a copa do mundo vai jogar-se nos Estados Unidos, com o México e o Canadá a servirem de emplastro, já que 75% dos 104 jogos, incluindo a final, se disputam em terras dominadas pelo inqualificável inimigo da democracia?
Entrei de novo em modo militante. Como é que é possível que um acontecimento desta magnitude, que segundo leio no site da FIFA está destinado “a celebrar a união dos povos na sua diversidade”, decorra num país que bloqueia as fronteiras a cidadãos de perto de 40 países, entre os quais alguns dos já apurados para a final, e acabe de proibir a imigração dos nacionais de outros 75, entre os quais o Brasil? Como é que é possível que as grandes marcas que o patrocinam, e que vivem sob o escrutínio dos consumidores, compactuem com uma coisa destas?
Estou certa de que o bajulador Infantino se encarregará de conseguir, a troco de mais uns prémios e de muitas figuras tristes, que Donald Trump conceda uma qualquer permissão especial de entrada às equipas proscritas para não estragar o espetáculo, mas é uma vergonha inqualificável impedir as famílias e os adeptos destas seleções de estarem presentes, afugentando das bancadas os imigrantes legais residentes nos EUA, não vá o ICE aproveitar a ocasião para implicar com eles.
Mas, espere, este não é só um problema dos outros. É nosso também. Todos os europeus vivem agora ameaçados pelos impulsos do atual governo norte-americano que, por qualquer razão, ou por razão nenhuma, se pode voltar contra eles, ou abandoná-los à sua sorte, como acontece com a Ucrânia. Ora, numa altura em que o delírio do ditador tem como alvo um território de um país da União Europeia, o mínimo que podemos esperar é que os nossos dirigentes deixem de lado a ilusão de o poder aplacar, porque a História já demonstrou essa impossibilidade. Mas façam eles o que fizerem, os cidadãos não podem cruzar os braços.
Pela minha parte, espero que a Federação Portuguesa de Futebol e as suas congéneres europeias se recusem pura e simplesmente a jogar nos EUA, sejam quais forem as consequências. E que os patrocinadores façam o mesmo. Não é eticamente admissível agir como se nada fosse, fingindo que estamos todos de mãos dadas a cantarolar hinos, enquanto o anfitrião nos insulta e espeta facas.
Mais, tenho a absoluta certeza de que se exigirem que se os jogos em que foram escalados a participar nos EUA se vierem a realizar no México ou no Canadá, serão elogiados pela sua coragem e apoiados pelos jogadores e equipas. Pronto, talvez Cristiano Ronaldo procure passar entre os pingos da chuva, com receio de não ser convidado para o primeiro baile no novo salão de ouro da Casa Branca, mas até ele acabará por ter vergonha de abandonar os seus colegas. E esta causa.
Leia no site do Jornal de Negócios »