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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
A FAZER O MELHOR QUE PODEMOS, COM AQUILO QUE TEMOS
Publicado em: 27/01/2026
Quando os nossos filhos lidam com um mesmo problema de forma diametralmente oposta à nossa, encontrando soluções que funcionam até melhor, não podemos deixar de nos sentir desvalorizados.
Querida Mãe,
Os meus filhos estão mais crescidos. Já não tenho nenhum bebé nos braços. As minhas hormonas deixaram de estar em versão pós-parto e, apesar de tudo, já durmo mais. E estou a conseguir, pela primeira vez, observar outras mães e outros bebés, já sendo eu mãe, mas não me sentindo no olho do furacão (pelo menos da maternidade dos primeiros anos, porque sobre a adolescência ainda temos muito para viver!) .
Este novo posto de vigia fez-me reparar em algumas coisas que estão a mudar dentro de mim e na forma como vejo o mundo.
A primeira foi constatar a alegria total que senti quando vi uma birra grande de um pequenino na missa de Natal e percebi que, uf, não era nenhum dos meus (mães do universo, se me virem a olhar atentamente para uma birra dos vossos filhos, é por pura empatia — já passei por demasiadas birras para julgar seja quem for!).
A segunda, e esta é mesmo importante, é que, de facto, quando estamos a conversar com outros pais, principalmente se são daqueles que têm ideias muito seguras sobre a sua parentalidade, é difícil não desejar que encontrem desafios parecidos com aqueles que tivemos de enfrentar. Há um desejo politicamente incorreto, mas bem real, de que não só enfrentem os mesmos obstáculos, como que apliquem soluções parecidas com as que nós aplicámos (e a que agora torcem o nariz).
Pois é, mãe, agora percebo melhor os conflitos dolorosos entre avós e mães, mas suspeito que o que vou dizer a seguir não é bem o que esperava (ou gostava) que lhe dissesse. É que, na realidade, quando os nossos filhos lidam com um mesmo problema de forma diametralmente oposta à nossa, encontrando soluções que funcionam até melhor, não podemos deixar de nos sentir desvalorizados — e, se calhar, até a pormo-nos em causa. E ainda que os outros não nos estejam a julgar, leva-nos a questionar porque fizemos o que fizemos, cometendo o erro de analisar as decisões que tomamos “de fora”, em retrospectiva. E isso não vale, porque sem recordar o verdadeiro contexto em que estávamos — quantas horas tínhamos dormido, quanto dinheiro tínhamos no banco, a que ajuda podíamos recorrer, a tensão, o medo do futuro, etc, etc, —, é muito fácil pensarmos que podíamos ter feito tudo de outro modo. Teríamos sido mais assertivos, ou menos, mais pacientes ou menos, mais obcecados ou menos...
Percebo também que é fundamental recordarmo-nos de que aquelas crianças, ainda que possam ter muitos traços parecidos, não são iguais aos nossos filhos. E muito menos aqueles pais.
A coisa melhor é que quando percebemos que todos nós fazemos o melhor que podemos, com aquilo que temos, e deixamos de lado estas romarias ao passado, somos capazes de gozar finalmente o alívio de já não estarmos tão assoberbados, sobrando-nos tempo e compaixão para oferecer a quem precisa dela. E sabe o que é que os pais que estão no meio do turbilhão de criar filhos pequenos mais precisam? Que lhes lembremos que devem aproveitar as coisas boas, porque desaparecem muito depressa, mas que também as coisas más vão passar...
***
Querida Ana,
Adorei a tua carta e o que é que vamos fazer quando te passares para o meu lado, para o lado dos avós? Dava-te as boas vindas ao clube, mas suspeito que a escreveste num dos raros dias em que tiveste cinco minutos de paz e julgaste que ia durar para sempre.
Falando muito a sério, há três pontos da tua carta que quero reforçar.
1. Nem todos os nossos pensamentos passariam no crivo do catecismo, tal como o aprendemos em crianças, mas não são sinónimo de sermos más pessoas, ou de desejarmos mal a alguém. Os alemães têm uma palavra para este sentimento – Schadenfreude, alegria por ver outra pessoa meter a pata na poça, mas que se distingue da inveja, porque não se quer o que o outro tem. Como é possível não sentir prazer em ver falhar momentaneamente uns pais narcísicos, convencidos de que vão moldar o filho como se ele não tivesse uma personalidade própria? Sim, e os avós sentem isto muitas vezes quando os filhos lhes entram pela casa dentro a repetir tiradas de manuais a que (obviamente) o neto dá a volta. Riem, para dentro, se forem capazes de se conter. E, se os filhos não forem um caso perdido, acabam por se rirem de si mesmos, e de assim crescer.
2. Tocou-me muito falares desse juízo implacável que aplicamos a nós mesmos, sobretudo enquanto pais, esquecidos de onde estavam as outras peças no tabuleiro. Rebobinamos a cena julgando que todas as opções eram possíveis, esquecendo-nos que naquela partida éramos a torre, o que nos impedia de andar na diagonal, que a casa para onde nos queríamos mover estava ocupada por um peão ou ao alcance dos saltos do cavalo. Pior, que se calhar fugíamos de um xeque-mate.
3. Fizemos o melhor que conseguíamos nas circunstâncias em que estávamos, escreves tu, mas eu digo-te mais: as nossas ruminações sobre como teríamos feito de outra forma se voltássemos ao mesmo ponto são treta. Passei a vida a recriminar-me por supostamente não vos ter frustrado mais, o que teoricamente aumentaria a vossa resiliência, blá, blá, blá, mas sempre que um de dos meus filhos, já maior e vacinado, está perante um obstáculo ou numa situação de aflição, reajo da exata mesma maneira como reagi quando tinham cinco, sete ou dezoito anos: deixo tudo e vou. É o que é. Talvez numa próxima reencarnação seja diferente, logo te informarei.
Beijinhos, querida filha, e responde-me na volta do correio.
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