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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
GENEROSOS, MAS DESCONFIADOS
Publicado em: 18/02/2026
Quando as pessoas falam acerca de doar, na realidade estão a falar sobre uma troca. Oferecem o que decidem oferecer. Mas quando se trata de dinheiro, passam a escolha final para as mãos de terceiros, e isso deixa-os desconfortáveis.
Se alguma coisa nos ensinaram as últimas semanas é que as pessoas são generosas e empáticas com as tragédias que acontecem na vida dos outros. Correm a ajudar e, do nada, aparecem toneladas de sacos de arroz e cobertores, roupa e telhas, para já não falar naqueles que oferecem o seu tempo e a sua capacidade de trabalho.
Isto é tudo verdade, mas em Portugal, como aliás no resto do mundo, temos uma grande dificuldade em ajudar da forma que seria verdadeiramente eficiente - doando em dinheiro. As organizações no terreno confrontam-se, vez após vez, com esta dificuldade difícil de ultrapassar e que acaba por diminuir em muito a sua capacidade de socorrer as vítimas e de as ajudar a recuperar e reencaminhar a sua vida.
Os bens oferecidos são muitas vezes pouco adequados à situação em causa, em quantidades absurdas, e implicam que voluntários selecionem, desempacotem e voltem a empacotar, gente que podia estar a prestar um auxílio mais relevante. Comprados diretamente e na quantidade realmente necessária custariam metade do preço, a que não se somaria o custo do transporte para o local, nem toda a enorme logística de armazenamento e conservação.
John Costello, professor assistente de marketing da Universidade de Notre Dame e Selin Malkoc, professora associada de marketing na Fisher College of Business, da Universidade estadual de Ohio, dedicam-se há anos a procurar entender a base psicológica para essa preferência, que acaba por produzir aquilo que as ONGS chamam da “segunda tragédia”, ou seja, o que fazer com tudo quanto sobra.
E o que concluem é que é sobretudo uma questão, muito humana, de abrir mão do controle. Quando as pessoas falam acerca de doar, na realidade estão a falar sobre uma troca. Oferecem o que decidem oferecer. Mas quando se trata de dinheiro, passam a escolha final para as mãos de terceiros, e isso deixa-os desconfortáveis.
A somar a estas causas, há outras que não admitimos facilmente porque nos deixam um bocadinho pior na fotografia: por um lado, com frequência, queremos doar o que já não nos interessa ou faz falta, ou ocupa demasiado espaço em casa e, por outro, e talvez mais importante, somos muito desconfiados. Rapidamente vamos buscar a notícia de uma fraude para nos autoconvencermos de que o nosso dinheiro pode alimentar os vícios da organização e nunca chegar às pessoas a quem se destina. Reagimos também mal a um certo anonimato, porque afinal fala-se sempre no total doado, no conjunto do bolo, deixando-nos a impressão de que o nosso contributo foi negligenciável.
O pior é que não desconfiamos só das organizações, suspeitamos igualmente das vítimas, que encaramos com algum paternalismo - será que vão aplicar bem o dinheiro, tal como achamos que devíam utilizá-lo? Gastá-lo indevidamente? Talvez até nos escandalizamos se venderem o arroz ou as escovas de dentes para conseguirem o que realmente precisam: a liquidez para pagarem as contas e tratarem da vida, como lhes parece melhor.
Mas, sejamos honestos, as organizações que se dedicam a situações de emergência não tem tempo para lidar com esta nossa imaturidade. Por isso temos de ser mais adultos e tomar a decisão, assumindo as consequências: ou queremos realmente ajudar, e doamos em dinheiro, ou não queremos e tudo bem, mas pelo menos somos honestos connosco mesmos, e não complicamos a vida a quem está no terreno.
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