CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 QUANDO OS NÚMEROS SÃO A ARMA DO MEDO
Publicado em: 18/03/2026
Quando os números são a arma do medo


Volto à guerra, volto às guerras. E à constatação de que somos tão facilmente dessensibilizados à violência, provavelmente porque nos expomos continuamente às mesmas imagens: explosões e incêndios, prédios arrasados, onde vagueiam entre os escombros pessoas atordoadas, que parecem procurar a sua vida perdida ou a confirmação palpável de que é mesmo verdade, perderam tudo. E nós, no conforto do sofá, fazemos um “swipe”, porque o cérebro já não reage às sirenes, nem aquelas pernas, grandes, médias e pequenas, que correm para os abrigos subterrâneos — está tudo visto, nada de novo a assinalar. Na melhor das hipóteses, talvez ainda nos sobressaltem os olhos azuis, a pele clara, o cabelo descoberto de véus ou turbantes.
A ciência prova que os nossos cérebros evoluíram para lidar com quantidades pequenas, correlacionadas com a nossa experiência e a nossa capacidade de ação. Somos extremamente sensíveis ao número um, a um caso isolado, um bocadinho menos ao dois, mas a partir do quatro ou cinco, passamos a processar os números de forma aproximada, em lugar de muito precisa: o salto de um para dez parece enorme, mas o de dez mil para vinte mil já mais insignificante. Tornamo-nos progressivamente indiferentes, proporcionalmente ao nosso sentimento de impotência.
É por isso que a fotografia daquela criança morta na areia de uma praia revoltou o mundo contra o horror das travessias dos refugiados no Mediterrano, fazendo crescer —nas semanas seguintes —, não só os donativos às instituições que os acolhem, mas também o clamor da opinião pública a exigir mais humanidade aos seus governos. É por isso que os jornalistas procuram (tantas vezes à exaustão) a história pessoal, a tragédia contada na primeira pessoa, atraindo sobre aquele protagonista a empatia e a solidariedade que nos falta para todos os outros — quando, por um instante, percebemos que podíamos ser nós, tudo muda de figura.
Já a demagogia, ao contrário da solidariedade, serve-se de números grandes, exatamente porque os neurónios não estão preparados para dar uma resposta concreta a realidades muito vastas. Se nos julgamos capazes de adotar uma criança, de acolher um refugiado, de manietar um atirador, de separar duas pessoas que se esgadanham, de respeitar a fé de alguém que não professa a nossa, já recuamos para uma posição de defesa quando imaginamos que são milhares de crianças, um exército inteiro, se em lugar de um bandido ou de um violador nos ameaçarem centenas. Sentimo-nos avassalados e entramos em pânico, o pior inimigo do raciocínio lógico.
Não é por um acaso que os populistas utilizam números hiperbólicos, percentagens gigantes, exageros estatísticos suportados por superlativos, como “lots and lots“, uma medida dimensional favorita de Donald Trump, assim como milhões, biliões, e palavras como “tsunamis” e “epidemias”, que os Trumps pequeninos imitam com o mesmo entusiasmo. O objectivo é que a assistência se perca, absorvendo apenas a magnitude do suposto problema, eliminando qualquer sombra de rigor.
Falam de avalanches de imigrantes a entrar no país, aumentos na ordem dos 95%, afirmam que milhões deles não trabalham, e outro tanto são violadores, além dos estrangeiros que abarrotam as nossas prisões, repetindo incessantemente as mesmas coisas para criar aquilo que os investigadores chamam de “Verdade ilusória”. Juntando habilmente este “big number blindness”, o nome científico dado ao fenómeno, ao nosso primitivo e instintivo receio de “estranhos” e da diferença, procuram instalar um espírito de cruzada, em que o outro é visto como um perigo existencial (seja ele seguidor de Deus, Alá, da ciência ou de outra divindade qualquer).
Mas cair na esparrela não é inevitável. É essa a moral desta história.