CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 UM CHEFE NARCISISTA DÁ CONNOSCO EM DOIDOS
Publicado em: 13/05/2026
A ciência tem procurado perceber melhor o que lhes vai na cabeça, nomeadamente porque é que se ofendem com tanta facilidade. E, quando espreitaram lá para dentro em momentos em que narcisistas diagnosticados perdiam um jogo, verificaram que as áreas do cérebro que se acendem com mais intensidade são as correlacionadas com a gestão da angústia.


A culpa só pode ser da indústria do vidro — ou melhor, dos espelhos — porque os narcisistas parecem estar a multiplicar-se a olhos vistos, sem que ninguém se atreva a fazer-lhes frente. E não falo apenas daquele em que o leitor está a pensar, e cujo nome já agonia, mas também dos que nos infernizam a vida no emprego, porque parecem ter uma capacidade invulgar de se propalarem para lugares de chefia. Moem-nos a cabeça com os seus autoelogios, são profundamente desconfiados, não suportam a menor sombra de crítica, passam a vida a “descobrir” soluções maravilhosas para problemas que já estão resolvidos, arrebanham para si todos os louros e entram em conflito com quem não os bajula.
A revista New Scientist, numa edição especial dedicada à mente humana e prefaciada por António Damásio, fala deles e das suas vítimas. Sofrem daquilo a que se deu o nome de Transtorno da Personalidade Narcisista (TPN), que há cinquenta anos passou a constar do famoso DSM, o manual oficial de diagnóstico das doenças mentais. Os sintomas, lá está, são a megalomania e uma necessidade desesperada de admiração, a que somam uma total falta de empatia — sintomas que se reconhecem facilmente naquelas pessoas que sobrestimam as suas capacidades e inflacionam os seus sucessos, muito para lá daquela tentação tão humana de exagerar no tamanho do robalo pescado ou omitir um desaire para tentar ficar melhor na fotografia.
“O ego inchado é acompanhado da certeza de que tudo lhe é devido, de uma necessidade de receber atenção permanente e exclusiva. Aliás, não percebem que haja quem não reconheça a sua excecionalidade. Vivem obcecados pela inveja, ou porque invejam os outros ou porque imaginam que o mundo inteiro os inveja a eles”, explica a New Scientist. O seu traço mais perigoso, no entanto, é a capacidade de manipular e abusar dos outros sem qualquer remorso.
Que há narcisistas pelo menos desde o tempo em que o poeta Ovídio nos contou a história do belo Narciso, que desprezava o resto da humanidade e se apaixonou pelo seu próprio reflexo, já sabíamos. Mas, como raramente procuram tratamento, torna-se difícil fazer um cálculo da incidência da doença na população. Contudo, há investigadores que se têm esforçado, e um estudo com um universo de 34.653 norte-americanos aponta para uma prevalência na ordem dos seis por cento — que, acrescento eu, parecem ter chegado todos ao poder ao mesmo tempo.
A ciência tem procurado perceber melhor o que lhes vai na cabeça, nomeadamente porque é que se ofendem com tanta facilidade. E, quando espreitaram lá para dentro em momentos em que narcisistas diagnosticados perdiam um jogo, verificaram que as áreas do cérebro que se acendem com mais intensidade são as correlacionadas com a gestão da angústia. A mania das grandezas seria, assim, o resultado de uma preocupação exagerada com a avaliação dos outros, um mecanismo de defesa de um ego frágil.
Parece uma contradição, mas não é, porque, ao longo do tempo, a mente pode criar circuitos tóxicos para evitar a dor, que acabam por reforçar o problema. Pois talvez já lá dizia o Padre Américo que não há rapazes maus, mas, quando me lembro dos chefes narcisistas que me calharam em sorte, não sinto a menor vontade de os absolver. Nem devia, dizem os especialistas. Mas, se as vítimas devem procurar ajuda, também devem ter cuidado com os “terapeutas” que, sobretudo online, oferecem tratamentos miraculosos, porque é muito provável que sejam, também eles, narcisos convencidos de que são capazes de curar, mesmo sem formação adequada.
Nota — Para os que quiserem protestar pelo facto de ter utilizado sempre “os” narcisistas: de facto, a prevalência é escandalosamente maior entre os homens, quinze vezes mais do que nas mulheres. Aparentemente, o narcisismo é socialmente mais tolerado no sexo masculino, mas também pode ser que elas consigam dissimular melhor o seu comportamento manipulativo — a minha experiência, que vale o que vale, é que também não faltam!