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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
E A MÃE, JÁ PENSOU NA LÁPIDE QUE GOSTAVA PARA SI?
Publicado em: 30/06/2026
Gostava que os nossos cemitérios fossem mais bonitos, mais jardinados e serenos, exatamente para passearmos neles e aprendermos a conviver com a morte sem tanto medo.
Querida Mãe,
Hoje fui a várias papelarias tentar comprar uma caderneta de cromos do Mundial de Futebol para o meu filho de 8 anos, e enquanto esperava na fila de uma papelaria mais antiga deliciei-me a ouvir a conversa (claramente o meu passatempo favorito) entre a dona da loja e uma cliente.
A dona estava a comentar que não tinha comprado uma coisa qualquer num certo sítio porque não havia no tom de cor-de-rosa certo, e que por isso tinha acabado por comprar num outro sítio que, sendo mais longe de casa, era também agradável — aliás a sogra também lá estava perto, e ela até se dava bem com a sogra, mas sobretudo tinha o tom de rosa que ela queria.
A cliente ia interrompendo, interessada, “Ah, mas então vais p’ra lá?”, “Ah que bom.”, “Sim, sim é uma boa zona”, e francamente eu ia desligar da conversa que não me parecia assim tão fascinante, quanto de repente a dona diz: “Sim, porque também tenho lá o jazigo para o meu marido, e a campa da minha sogra está mesmo ao lado.”
Mãe, o tom de rosa certo era para a pedra, para a lápide de granito que ia imortalizar o lugar onde a senhora ia descansar em paz. O sítio onde os filhos e netos um dia a irão visitar. O sítio onde o rosa, do tom certo, lhes lembraria a mãe e a avó.
A sério, aprendi três coisas muito importantes com esta conversa, a saber:
1. Vou fazer 40 anos e nunca tinha pensado em que cor quero para a minha lápide.
2. Temos que desmistificar a morte durante a vida.
3. Devemos mesmo ir a papelarias e lojas locais e não aos centros comerciais, porque aqui fala-se e ouve-se. Conversa-se.
E a mãe, já pensou na pedra que gostava para si?
***
Querida Ana,
Obrigada por fazeres de minha repórter no terreno, porque as conversas dos desconhecidos são também as minhas favoritas, e esta vale ouro. Sim, sim, claro que já pensei na pedra. Também quero ou rosa ou aquele amarelo do lioz, com fósseis de muitas formas, para me entreter enquanto espero pela ressurreição final. Isto porque, e já ficas a saber, não quero ser cremada — com a investigação para os meus romances históricos passei a dar uma importância enorme aos cemitérios, aos túmulos e às inscrições, são a marca da nossa passagem pela terra, e pistas importantíssimas para quem anda a tentar perceber o passado.
Gostava que os nossos cemitérios fossem mais bonitos, mais jardinados e serenos, exatamente para passearmos neles e aprendermos a conviver com a morte sem tanto medo. Sempre que vou a Inglaterra, passeio nos que rodeiam as igrejas no campo, e vou lendo os nomes e as datas, imaginando a dor e o sofrimento, sobretudo dos que perderam filhos, mas depois vejo as flores a crescer, e as crianças a brincarem à apanhada à volta das lápides e memoriais, e penso que espantoso que é este morrer e renascer constante.
E, Ana, tenho a certeza de que para a senhora, a ideia da pedra da cor exata que escolheu, junto da melhor companhia lhe dará a serenidade que precisa para enfrentar todas as angústias que lhe apareçam pela frente. Já gosto dela. Volta lá, compra mais uns cromos, e conta-me mais histórias.
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