CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 O PIOR EXEMPLO QUE OS ADULTOS PODEM DAR AOS MAIS NOVOS: NADA É PARA CUMPRIR
Publicado em: 07/07/2026
O que dizemos aos miúdos quando acordarem de manhã e decidirem que querem antes fazer o exame daqui a uma semana, porque dormiram com os pés de fora?


Querida Ana,

Só uma nota rápida: vejo com incredulidade que as trapalhadas dos exames se voltaram a repetir. Como é que é possível que, ano após ano, surjam tantas falhas no próprio conteúdo das provas, na correção das provas — agora com o argumento de que a culpa é do digital —, com o processo interrompido porque a plataforma esteve “em manutenção”, por se terem detetado “vulnerabilidades”, e por aí adiante.

A confusão é, obviamente, sempre aproveitada pelos partidos da oposição, como se no tempo em que estiveram no poder não fosse a mesmíssima coisa, mas o mais grave de tudo isto é que mina a confiança dos alunos e das famílias na fiabilidade dos resultados. E, aí está outra, num país onde a entrada para o curso desejado continua a depender apenas das notas, sem que entre na ponderação de acesso à universidade, a entrevista pessoal com o candidato, a carta de intenções escrita pelo aluno e a experiência de “trabalho”, nomeadamente voluntário a favor da comunidade, cada décima passa a ter um peso real e emocional desproporcionado. O que só agrava a crise de nervos dos miúdos.

O ministro da Educação veio, entretanto, afirmar que muitas das histórias que se contam por aí são falsas, mas simultaneamente fez uma coisa que me põe os cabelos em pé: adiou a data da divulgação dos resultados e mudou o calendário da realização da segunda fase dos exames nacionais, tanto do 9º ano, como do 12º ano. Tal como aconteceu o verão passado. Ana, é o pior exemplo que os adultos podem dar aos mais novos, que nada é para cumprir, que se pode perfeitamente mudar um compromisso importante de que depende a vida de tanta gente, que o que está marcado para um dia pode não chegar a acontecer, não porque houve um terramoto ou um tsunami, mas porque pela milionésima vez o Ministério da Educação, que gasta mais de 80 por cento do seu orçamento em recursos humanos, não conseguiu cumprir o calendário. Explica-me lá o que dizemos aos miúdos quando acordarem de manhã e decidirem que querem antes fazer o exame daqui a uma semana, porque dormiram com os pés de fora?

Esta Birra não é a brincar, Ana, os exemplos vêm de cima.

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Querida Mãe,

Obrigada por ter escrito esta carta porque embora me tenha indignado com toda esta confusão dei por mim a suspirar um "mais do mesmo", sem grande força para agir. E isso sim, é grave. Quando nos vamos habituando e contentando com o medíocre, é o pior dos sinais. Aceitando estas trapalhadas como normais. Aceitando que todos os pais cheguem a setembro sem horários, sem saber se os filhos vão ou não ter professores. E que em dezembro ainda faltem. Enfim, todas as coisas que aceitamos como se fossem inevitáveis. Por isso obrigada por ainda se indignar e levantar a voz. Temos que exigir mais e melhor!

Beijinhos



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