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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
QUEM É QUE INVENTOU A ALEGRIA NO TRABALHO?
Publicado em: 08/07/2026
Quanto mais iludidos, maior a probabilidade de se tornar uma fonte de frustração, confusão e desilusão.
Trabalhei num jornal onde um recém-chegado administrador trazia consigo para todas as reuniões um gráfico das vendas, que um lambe-botas qualquer lhe entregara no primeiro dia. Como seria de esperar, a linha começava num ponto alto, com dezenas de milhares de jornais vendidos, descia imediatamente a pique e mantinha-se depois disso numa monocórdica média que parecia não sair da cepa torta. A lição de moral que acompanhava a exibição do “cartaz” era a que qualquer um de nós já escutou quando há uma mudança de chefias: os sem vergonha dos antecessores não percebiam nada da poda, e agora era tempo de arregaçar as mangas e voltar à glória do passado. Ou, como André Ventura, o “banheiro” do verão de 2026 anuncia em cartazes espalhados pelo país, era tempo de salvar Portugal.
Esperem, já volto à história que estava a contar. A do gráfico, claro, porque quando se viam os números dos anos anteriores, percebia-se imediatamente que aquele pico era um outlier, resultado de uma daquelas promoções em que por mais X do que o preço de capa do jornal, o leitor levava talheres e copos ou um livro com a história dos clubes de futebol, e a linha anterior estava ao mesmo nível do que a que se seguia. Ou seja, o jornal não caia a pique, coisa nenhuma. Havia sim, e isso era importante, uma ação de marketing que tinha corrido muito bem. Mas vá lá alguém conseguir explicar uma coisa destas a quem foi vendida uma história completamente diferente.
Recordei esta cena quando vi o mais recente relatório da Gallup “State of the Global Workplace”, que dá conta de que seis em cada dez trabalhadores não está muito, pouco ou nada envolvido no emprego, o que corresponde a uma produtividade perdida de cerca de 9% do PIB global. Pior, a Europa tem uma taxa de envolvimento de apenas 13% e em Portugal, por comparação, até estamos um bocadinho acima da média com 19%. É supostamente muito preocupante, mas lá está, se formos analisar o gráfico todo percebemos que, afinal, o engagement global estava em 12% em 2009, altura do primeiro inquérito, cresceu sempre até 2022, altura em que chegou aos 23%, e agora desceu para os 20%, o que, convenhamos, são apesar de tudo mais oito pontos percentuais do que há 17 anos. Por outras palavras, a Gallup admite, nas letras pequenas que não fizeram manchetes dos jornais, que para milhões de trabalhadores a relação com o trabalho melhorou.
A tendência para darmos mais atenção às notícias más do que às boas é sinal de que o nosso cérebro está a funcionar como devia, atento antes de mais nada àquilo que pode constituir uma ameaça, mas pode levar-nos a procurar as causas onde elas não estão. O relatório discorre sobre todas as insatisfações do trabalhador, o stress, a raiva, a frustração e por aí adiante, deixando indicações de como é que os líderes das empresas devem motivar os assalariados a aparecerem todas as manhãs com um sorriso nos lábios, mas talvez devêssemos antes levar para férias o livro do Alain de Botton, “Alegrias e Tristezas do Trabalho”. É que o filosofo lembra que só a partir da revolução industrial é que se começou a falar do trabalho como uma coisa boa e não um castigo. Não passava pela cabeça de ninguém que fosse um caminho para a realização pessoal, e o pior é que a maioria das pessoas meteu na cabeça que o emprego deve ser uma “vocação”, uma paixão, quando dar gozo nunca foi o objetivo da coisa, que se destina, antes de mais, a assegurar a subsistência. Quanto mais iludidos, maior a probabilidade de que se torne numa fonte de frustração, confusão e desilusão. Escreveu-o em 2010, repete-o constantemente, e deve sentir-se um visionário porque e é exatamente tudo isto que o relatório da Gallup relata, com aparente surpresa. Decididamente, leia o livro.
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