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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
ELEVADORES “FORA DE SERVIÇO”: A SAGA DE CARREGAR UM CARRINHO DE BEBÉ NO METRO DE LISBOA
Publicado em: 15/07/2026
O Birras de Mãe acompanhou durante dez dias avós que usam o metro para levar a neta à creche e se depararam com elevadores fora de serviço. O Metropolitano diz que a situação está a melhorar.
Querida Ana,
Esta é uma birra muito séria, feita a pedido de muitas famílias que veem sistematicamente o seu dia-a-dia infernizado pela sistemática avaria de elevadores nas estações do metropolitano de Lisboa.
Começo por te contar a experiência, que o Birras seguiu de perto: uma avó e um avô de sessenta e alguns anos foram durante dez dias úteis de metro levar e buscar a neta de dois anos à creche, usando obviamente um carrinho de bebé e, de todas as vezes — exatamente, de todas as vezes! — viram-se obrigados a transportar a criança e o carro pelas escadas abaixo até à plataforma na Ameixoeira, pelas escadas acima e abaixo no Campo Grande, onde trocavam de linha, para finalmente subirem de novo com a “carga” no Areeiro — e ao fim do dia, no regresso, a saga era a mesma. Não, Ana, não foi porque as estações não tinham elevadores, mas porque os elevadores estavam fora de serviço. O que, garante o pai desta criança, acontece invariavelmente num ou noutro ponto do percurso quando é ele a fazê-lo, transformando uma etapa do caminho para o emprego numa epopeia que demora o dobro do tempo — tempo que os pais não têm.
Decididamente investigar este assunto era uma obrigação de serviço público porque, era mais do que evidente, que não podia ser só esta a família afetada, e há décadas que o assunto é notícia na comunicação social (assim como as promessas de resolução). Através das redes sociais, pedi o testemunho de quem tivesse experiências idênticas e choveram as queixas, algumas nos comentários, muitas por mensagem privada, e até por e-mail. Queixas fundamentadas, com indicação do nome das estações concretas, que me permitiram perceber que o problema é transversal a quase todas as estações com elevadores, se estende também às escadas rolantes e, decididamente, não é novo. Porque, Ana, não estamos a falar de cinco degraus! Em certas estações mais fundas como, por exemplo, a da Ameixoeira, onde os dois elevadores para a rua e o interno estão frequentemente parados, são necessários três lances de escadas para chegar ao nível da saída, e depois mais um para aceder à superfície. É uma estação moderna, inaugurada em 2004 e construída de raiz.
Mas se a situação é complicada com carrinhos de bebés, imagina como é cruel para aqueles que se deslocam em cadeira de rodas ou têm mobilidade reduzida, numa cidade que já os respeita tão pouco? Não admira que tenham sido dessas pessoas muitos dos protestos que recebi, com o apelo a que denunciasse a situação, alguns zangados porque lhes pareceu que eu acendia os holofotes sobre as crianças, esquecendo-os. Com alguma razão, reconheço, porque enquanto os bebés têm pais e avós que conseguem contornar a situação, as pessoas com estas limitações físicas ficam presas na plataforma, não lhes sobrando outra alternativa senão voltar para casa ou mudar completamente os planos, faltando inclusivamente ao emprego.
Por esta hora estás a perguntar porque é que há tantas avarias? E que explicação tem a empresa Metropolitano de Lisboa tem para tudo isto. Fui perguntar-lhes e, honra lhes seja feita, não se escusaram a responder.
Primeiro os números: estamos a falar de 121 elevadores, 234 escadas mecânicas e dez tapetes rolantes, distribuídos pelas suas 56 estações, que o Metropolitano de Lisboa reconhece que têm tido “níveis de indisponibilidade elevados” e que, apesar dos esforços empreendidos, “têm de continuar a melhorar”. Apesar de tudo, asseguram que a evolução tem sido positiva: “No final de janeiro, cerca de 33% dos elevadores encontravam-se indisponíveis, e atualmente essa percentagem situa-se, aproximadamente, em 17%, e, no caso das escadas mecânicas, a taxa desceu de 15% para 8%”.
Embora sejam boas notícias, há que ter em atenção que a falha de um único elevador, mesmo quando existem outros (noutros sítios da mesma estação), pode impedir o acesso à linha ou à superfície. Imagina, por exemplo, que chegaste ao Campo Grande, no sentido Odivelas, e queres sair da plataforma e subir ao átrio, mas o elevador está estragado (como acontece no dia em que te escrevo) — de nada te ajuda que o elevador de outra plataforma da mesma estação esteja em funcionamento. Ou seja, do ponto de vista do utente, as percentagens são outras. O Metropolitano de Lisboa é o primeiro a reconhecer que “para quem chega a uma estação e encontra o elevador avariado, a estatística não resolve a dificuldade concreta naquele momento”, menos ainda, digo eu, quando a avaria é muitíssimo frequente, baixando o nível de tolerância do mais paciente utilizador.
A lista de avarias é extensa, nas portas, nos botões de chamada e sistema de alarme, nas células fotoeléctricas e por aí adiante e, por vezes, por lamentáveis ações de vandalismo, mas a questão de fundo mantém-se: porque não são reparadas com mais celeridade?
O Metropolitano de Lisboa explica que os elevadores foram instalados de forma faseada, ao longo dos anos, o que significa que coexistem equipamentos com diferentes idades, tecnologias e fabricantes, tornando a manutenção mais complicada. Manutenção que está a cargo de empresas especializadas, porque não possuem manutenção própria, cabendo-lhes, no entanto, acompanhar, fiscalizar e acionar os procedimentos necessários para que tudo funcione. E, garantem-nos, este assunto é uma prioridade.
Acreditamos que sim, mas, Ana, se tiveres de andar com bebés no metro, ou com alguém com mobilidade reduzida, tens a possibilidade de — antes de sair de casa — consultar o site do metro para descobrir antecipadamente quais são os elevadores que estão fora de serviço, alternando o percurso, ou usando outro meio de transporte. Deixo-te uma indicação para não perderes tanto tempo a descobrir como funciona: logo a abrir, no quadro “Estado das linhas e elevadores”, escolhes a linha que te interessa e vai-te surgir uma “janela” com a circulação, e mais abaixo “Estado dos elevadores”, e à frente do nome de cada estação surge uma de três cores, verde, estão todos operacionais; vermelho estão todos em baixo, ou amarelo, que significa que naquela estação há um ou mais que não estão. Visto assim parece que tens alternativa, mas, como no caso da família que acompanhamos, pode estar avariado exatamente aquele que precisas, daí que possas ainda carregar de novo para descobrir esse “detalhe”.
Ana, é muito claro que o Metropolitano de Lisboa tem perfeita consciência do problema, e que estão a tentar inventar soluções e a contornar obstáculos, mas vamos ficar atentas para confirmar que desta vez têm, de facto, um efeito concreto na vida das pessoas.
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