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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
O TURISMO DE SUPERMERCADOS É A NOVA GRANDE TENDÊNCIA
Publicado em: 19/08/2026
Esqueça a Torre de Belém, a Biblioteca Joanina ou o templo de Diana, porque o que os turistas agora querem visitar são hipermercados. Para alguém que, como eu, foge como o diabo da cruz daqueles armazéns de prateleiras sem fim atoladas de pequeníssimas variantes dos mesmíssimos produtos, a nova tendência só podia deixa-me atordoada.
Esqueça a Torre de Belém, a Biblioteca Joanina ou o templo de Diana, porque o que os turistas agora querem visitar são hipermercados. Para alguém que, como eu, foge como o diabo da cruz daqueles armazéns de prateleiras sem fim atoladas de pequeníssimas variantes dos mesmíssimos produtos, a nova tendência só podia deixa-me atordoada. Não é ficção, prometo, está atestada como uma das maiores tendências do turismo para 2026, tanto no relatório “Hilton's 2026 Trends Report”, que indica que 77 por cento dos viajantes adoram visitar supermercados no estrangeiro, como também na lista da Condé Nast Traveller, ambos profusamente citados numa reportagem da BBC que considerou o fenómeno digno da sua atenção.
Segundo parece, os turistas que no dia a dia usam estas superfícies de forma puramente utilitária, quando viajam passam tardes inteiras a estudar os produtos, nomeadamente os que não encontram na sua terra — como Nutella sem açúcar! —, e a tentar decifrar rótulos em busca de um sabor inesperado. Mas o que é um sinal de alerta é que indicam que o que mais os atrai é passear num lugar onde nada lhes é diretamente destinado, porque estão fartos até à ponta dos cabelos de lojas para turistas, cheias de sardinhas pintadas, andorinhas e galos de Barcelos, os mesmíssimos recuerdos, porta sim, porta sim. Agora preferem levar à família pastéis de nata e enlatados, e uma qualquer espécie de cogumelos ou cereais que imaginam desconhecidos.
Além do mais, escreve a jornalista da BBC, sentem (e ela inclui-se neste grupo) que os hipermercados contam a história do presente, enquanto os monumentos são muito bonitos, mas só falam do passado, valha-nos Deus. Acham mais estimulante cruzar-se com os nativos de carne e osso, que já não vivem nos espaços que lhes são destinados (verdade!), observando aquilo com que enchem os carrinhos de compras, procurando decifrar o que comem ao pequeno almoço ou bebem ao jantar, imaginando-se assim imersos na cultura local (não estivesse a cultura local imersa na universalidade dos hipermercados).
Os empresários do ramo já deram pelos novos ares. Em janeiro, a cadeia K-supermarket, da finlandesa Kesko, foi pioneira a inserir as suas lojas como atrações turísticas no Tripadvisor. Lindo! Em Helsínquia, por exemplo, uma delas inclui um teto de colmeias verdadeiras onde é produzido o mel que ali se vende, e outra inclui uma “fábrica” de cerveja, onde o turista pode beber uma caneca do que viu produzir. Todas as “sucursais”, afirmam, passaram a ser pensadas para refletir a comunidade em que se inserem, para assim vender melhor ao turista que as visita, digo eu.
A coisa é tão séria que a BBC até foi ouvir um psicólogo da Universidade de Oxford para tentar entender esta paixão, e o professor Charles Spence saca do “Paradoxo do Rosé da Provença” como explicação. O paradoxo comprova que o exato mesmo produto, neste caso o vinho, dá muito mais prazer quando é consumido numa vinha, durante as férias, do que no regresso, na cozinha lá de casa. Ou seja, até as papilas gustativas são sensíveis ao contexto.
O que concluo de tudo isto é que tenho decididamente de me atualizar, porque prevejo para breve a chegada de autocarros de excursão às portas do Pingo Doce e do Continente, com filas de turistas a seguir um guia com um guarda chuva levantado e a fotografarem pacotes de leite meio gordo ou de esparguete, enquanto lhes berram que sigam para as prateleiras de vinho do Porto, com garrafas que estão ali há mais de vinte anos.
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