BIOGRAFIA
•
LIVROS
•
PRESS
•
ALBUNS
•
AGENDA
•
DIAS DO AVESSO
•
CRÓNICAS E ENTREVISTAS
•
CONTACTOS
CRÓNICAS E ENTREVISTAS
O NEGÓCIO DA MATERNIDADE ADIADA
Publicado em: 02/09/2026
A propaganda baseia-se no facto de que quanto mais precoce for a recolha (antes dos 30 anos), maiores serão (um dia) as probabilidades de gerar um bebé, e na ameaça subjacente de que adiar pode ser sinónimo de arrependimento eterno.
Enerva-me tanto que levem as pessoas ao engano, mas em nenhuma área a indignação é tão grande como quando se trata de “brincar” com o desejo de ter um filho. Quando se promete o que, na realidade, não há garantia de oferecer, por muito que se junte toda a ciência e todo o dinheiro do mundo.
Antes de avançar, declaro já que a possibilidade de criopreservar óvulos é um avanço extraordinário da Medicina, que tornou possível dar a esperança de uma gravidez a mulheres afetadas por doenças graves, como o cancro, ou que se têm de sujeitar a tratamentos que destroem ou põem em grave risco a sua fertilidade, e que até há pouco não poderiam vir a ser mães.
Mas coisa diferente, muito diferente, é quando em lugar de ouvir defender melhores condições para que as mulheres possam ter filhos de acordo com o seu relógio biológico, e de ver lutar por mais apoio à conciliação entre vida profissional e familiar, oiço gabar as grandes empresas, como a Apple e muitas outras, que oferecem esse benefício às suas “colaboradoras”, como agora se diz. Um gesto supostamente altruísta, alegadamente destinado a retirar a pressão de terem de escolher entre a carreira e a maternidade, mas que tem uma mensagem (nada) subliminar: concentrem-se no trabalho, porque no admirável mundo novo em que vivemos, o tempo biológico já não tem importância nenhuma. Aí fico de cabelos em pé.
Mas ultimamente juntaram-se aos empregadores, celebridades e influencers que nos asseguram que puseram a fertilidade no congelador, porque assim não precisam de andar quais Cinderelas a moer a cabeça em busca do príncipe perfeito para ser pai dos seus filhos (como ouvi numa reportagem da TVI). A fada-madrinha, neste caso, são as empresas/clínicas que, com a ajuda do algoritmo e do poder da bata branca com o estetoscópio ao pescoço, fazem disto negócio. Um negócio, aliás, em expansão, embora ninguém tenha números precisos, e que atrai uma clientela cada vez mais nova. A propaganda baseia-se no facto real de que quanto mais precoce for a recolha (antes dos 30 anos), maiores serão (um dia) as probabilidades de gerar um bebé, e na ameaça subjacente de que adiar pode ser sinónimo de arrependimento eterno.
Na realidade, dizem as estatísticas internacionais, só cerca de 7% de quem congela os óvulos regressa para os recolher, acabando por conceber naturalmente, o que a par da evolução constante da tecnologia torna difícil oferecer probabilidades consolidadas a quem se aventura por estes caminhos. Mas quem chegou ao fim do processo tem, muitas vezes, uma história menos cor-de-rosa para contar. Que o diga, por exemplo, Brigitte Adams, que foi capa da Bloomberg Businessweek para anunciar os benefícios desta técnica, para anos depois, e sem filhos, lamentar-se publicamente não ter percebido como eram baixas as taxas de sucesso. Experiência semelhante à de Amanda Sloat, conselheira de Segurança Nacional da Casa Branca, que usufruiu daquilo a que chamou de “passo revolucionário no caminho do empoderamento feminino”, congelando óvulos por três vezes, para em 2025 descrever à revista Time, o luto profundo por afinal não ter sido mãe.
Não me entenda mal, não pretendo nem travar a ciência, nem fazer julgamentos sobre decisões pessoais, mas quero muito que as escolhas sejam realmente informadas. O que é tanto mais urgente num país onde, segundo um estudo (Ipsos/Wells) deste ano, as portuguesas assumem que conhecem muito mal o funcionamento do ciclo menstrual e metade confessa não ser capaz de identificar a sua janela de fertilidade. Presas fáceis de expetativas irrealistas, portanto.
Porque uma coisa é absolutamente segura: a probabilidade de um ovócito descongelado resultar num bebé depende de milhares de fatores e é absolutamente imprevisível à partida, mas cifra-se na melhor das hipóteses em cerca de 5% por unidade. Se é verdade que um ovócito recolhido cedo (e que sobreviveu ao descongelamento) é mais saudável do que aquele que envelhece num ovário, o processo até chegar a embrião e ser implantado é longo e perigoso, e não se pode deixar de adicionar às probabilidades as complicações de uma gravidez após os 40 anos. A tecnologia evoluiu, mas o sistema reprodutivo humano continua a ser o mesmo.
A outra certeza são os custos. Uma consulta aos preços oferecidos pelas clínicas em Portugal permite afirmar que é preciso contar com cerca de 3 mil euros para um único ciclo de estimulação dos ovários, recolha e criopreservação, a que se somam entre 800 e 1500 euros em medicamentos, para já não falar nas anuidades para os manter mais tempo (embora a lei imponha um prazo máximo de cinco anos, o limite é contornado!), e nos milhares necessários, mais tarde, para a Fertilização in Vitro. O que não encontra nestes sites, mas um inquérito mais profundo consegue apurar, é que quanto mais “velha” for a mulher (e velha, neste caso, é ter mais de 35 anos), mais ciclos serão necessários para chegar aos 15/20 óvulos que se considera necessários para (hipoteticamente) obter um bebé.
Decididamente, há maçãs envenenadas.
Leia no site do Jornal de Negócios »