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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
ANDAMOS OBCECADOS POR VER AS CRIANÇAS CRESCEREM ANTES DO TEMPO
Publicado em: 15/09/2026
O argumento de base é simples: uma pessoa bem preparada vale por duas, e o “agora é mais fácil do que esperar”. Se entrar para o jardim de infância já a saber as cores e as letras, melhor.
Querida Mãe,
Queria fazer uma birra à pressa. Andamos obcecados por ver as crianças crescerem antes do tempo. Se gatinhou, é preciso treiná-lo para que ande. Se anda, que corra... Se deixou de mamar, agora que deixe a xuxa, se entrou no jardim de infância é preciso começar a preparar o primeiro ciclo. Na escola, muitos professores nas apresentações do início do ano falam dos "testes do fim do ano" e de como "o próximo, então, é que vai ser mesmo difícil”. O fenómeno, na realidade, estende-se a tudo — a mãe já reparou que nas lojas o verão é composto de roupa de outono e no princípio da primavera já temos os fatos de banho a apressar-nos?
O argumento de base é simples: uma pessoa bem preparada vale por duas, e o "agora é mais fácil do que esperar". Se entrar para o jardim de infância já a saber as cores e as letras vai melhor. Se chegar ao primeiro ano já a saber ler, vai com avanço. Se desmamarmos aos 6 meses "depois não custa tanto".
Será? Não é nada disto que estudei do desenvolvimento infantil! E se para alguns a janela estava próxima e o ajuste não foi complicado, para outros o salto que não respeita o seu crescimento torna-se num caminho de dificuldade e sofrimento. E quando o constatamos, como não queremos dar o braço a torcer, defendemo-nos dizendo: “Ainda bem que começámos mais cedo, com os problemas que tem agora o que seria se tivesse sido mais tarde”, descartando que começar mais tarde, na altura em que estava física, cognitiva ou emocionalmente mais preparado, teria tornado tudo mais fácil.
Muitas vezes, os pais fazem-no também porque facilita a logística de creches e jardins de infância que preferem que já tenha sido feito o desmame, o desfralde, ou tenha deixado de dormir a sesta; outras, porque dá jeito às marcas que estejamos sempre a comprar aquilo que nos pode vir a fazer falta. Outas, porque estão ansiosos e expectantes, e não há nada de que ansiedade mais goste do que nos dar essa sensação de urgência. De nos convencer que temos que agir agora, porque senão... levando-nos a catastrofizar cenários que nos levam a imaginar que podemos perder tudo se nos atrasarmos.
Mas o que perdemos de verdade é aquilo que está mesmo à nossa frente. O agora. Mãe, quantas e quantas vezes achei que estava atrasada. Que os meus filhos não estavam a conseguir dormir fora de casa, ficar em festas sozinhos ou parar de beber biberons à noite. A sentir-me culpada por adiar a tentativa de acabar com um hábito, ou de serem capazes de desafiar um medo, só para constatar que uns meses/anos mais tarde não foi preciso empurrar nada, não foi preciso lutar nada. Que depois, mais velhos e mais capazes, fizeram tudo com calma e naturalidade. Sem pressa e sem guerras.
Eu sei que nem tudo "tem o seu tempo" e que, em algumas situações, a intervenção precoce salva vidas e caminhos, mas uma coisa é vermos que uma criança está preparada, mas com dificuldades (e aí intervir), outra é defrontar-se com dificuldades simplesmente porque não estava preparada.
Como é que os avós veem esta ansiedade de os fazer crescer depressa?
***
Querida Ana,
Tudo o que escreves é tão verdade que até arrepia. E, desta vez, acho que os avós não são provavelmente grande ajuda, porque foram pais há muito tempo e compactam etapas, já para não falar na tendência para dourar a sua competência enquanto educadores. Ou seja, somos bem capazes — e falo por mim — de jurar que os nossos queridos filhos (vocês) dormiam a noite toda desde que vieram ao mundo, largaram a xuxa ainda nem andavam, sabiam ler antes de abrir o livro, e por aí adiante.
Por isso, acho que a tua birra deve levar-nos a ir abrir os álbuns antigos, a ler os diários, os livros de bebé e as cartas que escrevemos nessa altura, para tentarmos avivar a memória e não nos tornarmos, sem querer, em mais uns arautos do crescer depressa a qualquer custo.
Graças à tua carta, lembrei-me, por exemplo, que só deixei a xuxa aos seis anos, e foi porque a minha mãe deixou que o meu melhor amigo lá fosse dormir a casa e tive vergonha de que ele descobrisse. Sim, porque ser a sétima numa família grande tem a grande vantagem de que os nossos pais já perceberam que não dá bom resultado fazer das crianças cavalinhos de corrida. Melhor do que isso, já entenderam que o desenvolvimento infantil tem o seu tempo próprio, depende muito menos dos pais e dos educadores do que aquilo que eles gostam de imaginar (o nosso cérebro tem biliões de anos!), e que mesmo que ninguém faça malabarismos, chegamos todos à meta.
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