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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
O “CUSTO DE OPORTUNIDADE” APLICADO ÀS DISPUTAS CONJUGAIS
Publicado em: 30/09/2026
Por cada benefício que obtemos, pagamos um preço e é um delírio alimentar a esperança de que todos os nossos desejos e necessidades sejam satisfeitos.
Temos de ser uns para os outros, e é por isso que decidi revelar a quem convive com economistas, gestores e, em suma, leitores encartados do Negócios, que o conceito de “custo de oportunidade” pode ser utilizado para acabar com muitas das discussões conjugais. Funciona como um ponto final, deixando a parte contrária atordoada e sem argumentos. Por outras palavras, desta vez este texto não é para si, mas para a pessoa com quem partilha a alcova. Tendo esse facto em conta, peço que lhe passe esta página ou o link do artigo.
Provavelmente, não presta grande atenção ao jargão e aos anglicismos da sua cara metade e entre retornos decrescentes, sunk costs, benchmarking e outras que tais, nem deu por esta. Não tenha complexos, também eu precisei que me explicassem como se fosse loira, mas agora estou em condições de lhe papaguear o que aprendi e que, aliás, traduzido em linguagem corrente, parece bastante lapalissiano. O “custo de oportunidade” significa, basicamente, que quando empregamos o nosso dinheiro, o nosso tempo ou qualquer outro recurso de uma determinada maneira, estamos sempre a sacrificar as alternativas. Ou seja, por cada benefício que obtemos, pagamos um preço e é um delírio alimentar a esperança de que todos os nossos desejos e necessidades sejam satisfeitos.
Mas a questão neste momento é comprender como é que podemos usar o conceito a nosso favor, nomeadamente para calar o “adversário”. Dou-lhe um exemplo testado: o seu marido, por uma vez no banco do passageiro, refila consigo porque não segue o Waze, optando por fazer o percurso do costume, escolher o parque que conhece e estacionar, se possível, no mesmo lugar? Faz ouvidos de mercador à sua explicação de que conduzir em piloto automático lhe sossega a cabeça e permite aproveitar o tempo para o dedicar a pensamentos mais interessantes? Então, desista de conseguir que a entenda e limite-se a anunciar que age assim para otimizar o “custo de oportunidade”. Com duas palavras, sintentiza assim que, para além de preferir perder mais dez minutos — ou o que for — para economizar na sua saúde mental, vai poupar nas horas que, ao final do dia, iria gastar a deambular pelo parque em busca de um veículo do qual não se lembra da marca nem, muito menos, da matrícula.
Descoberta a arma, não vão faltar ocasiões para a usar. À queixa de que os “seus” filhos (nessas alturas nunca são dele!) gastam o orçamento familiar a encomendar pizzas, responda que o custo de oportunidade dessa opção foram horas de tranquilidade ganhas sem ouvir protestos, contribuindo para a sua sanidade mental, cujo output é uma diminuição significativa da probabilidade de lhe infernizar a cabeça pelas noites que passa agarrado à televisão a ver futebol; se ela protesta porque comprou azeite na mercearia caríssima da esquina, em lugar de ter ido ao hipermercado onde era mais barato, lembre-lhe que está a esquecer-se do custo de oportunidade da gasolina, do desgaste do carro e dos 45 minutos da sua vida perdidos na fila da caixa.
Obviamente que o conceito aplica-se igualmente à intimidade, basta que quando um se queixa de que o outro está sempre com dores de cabeça, cansado ou viciado em séries, se explique que o custo de oportunidade de um avanço contrariado é um resultado medíocre.
Decididamente, tenho a forte suspeita de que a ciência económica ainda tem muito para dar à harmonia no lar. Prometo continuar a estudar a matéria – até porque o custo de oportunidade de um divórcio é manifestamente superior.
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