CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 A EPIDEMIA DE FALHAR COMPROMISSOS
Publicado em: 05/02/2020
Em Portugal — lá fora, não sei — falhar compromissos, sem a coragem de assumir as consequências, é uma pandemia, que aparentemente só melhora quando emigramos.

Vamos chamar-lhe senhor Tavares, ou Dr. Tavares, ou o Amigo Tavares, o apelido pouco importa, aliás, também podia ser Senhora Zulmira, Eng.ª Zulmira ou Artista Zulmira, a doença não escolhe sexo, habilitações académicas, nem tão-pouco idade ou classe social. Em Portugal — lá fora, não sei — falhar compromissos, sem a coragem de assumir as consequências, é uma pandemia, que aparentemente só melhora quando emigramos. Ou, talvez, os que emigram sejam os certinhos que não suportam viver num país onde poucos cumprem a palavra dada.

Vamos ao senhor Tavares. Tem página de Facebook a anunciar os seus serviços, vídeos promocionais, e um “sempre aberto” a faiscar. Atende rapidamente o telemóvel, e discorre sobre tudo o que tem para oferecer. Marca-se o encontro, mas inesperadamente no dia e na hora aprazados não aparece. Não avisa, e não atende nem chamadas, nem mensagens. O serviço que aceitou para a mesma hora não lhe deixa mãos a medir. À medida que o desconforto cresce, menos vontade tem de ligar. Por fim, esquece.

Já o Dr. Tavares é administrador de uma grande empresa. O homem, como não cumpre com a agenda que ele próprio estabelece, anda perpetuamente atrasado. Tem uma infeliz secretária que se desunha para lhe mascarar as falhas, inventa desculpas de compromissos inadiáveis, mas quem trabalha com ele sabe que não passam disso. A mãe já lhe morreu três vezes, e o Presidente da República convocou-o pelo menos dez, sempre em cima da hora, para tirar com ele uma selfie. No entanto, o Dr. Tavares é muito importante, e ninguém se atreve a não comparecer à hora marcada, apesar da seca que os espera. Quando o Dr. Tavares finalmente chega, nem faz menção ao atraso.

A artista Zulmira está ávida de aceitar a proposta que lhe é feita. É claro que vai pintar o mural para a data marcada, não é rapariga para falhar. A página de Instagram lá está para mostrar como é incansável. Aceita o adiantamento, claro está, uma pessoa não pode viver do ar, e assina o contrato, evidentemente, mas na data marcada nem vê-la. Perante a insistência, responde por fim com uma curta mensagem a dar conta de um “imprevisto” que a impediu até de avisar — os imprevistos, aliás, são outra das pandemias nacionais, que ao contrário do que o nome indica tendem a manter-se meses a fio.

Perante o pânico de quem depende do seu trabalho, a artista Zulmira pede uma nova data, que volta a falhar. E a seguir, deixa de atender o telefone. Ela até ia responder, mas na sua cabecinha passou de agressor a vítima — “Quem é que eles se julgam para insistirem desta maneira?”, pergunta-se, ofendida —remetendo quem ficou com o menino nos braços, para o papel de mau da fita. A parede, essa, continua branca.

A senhora Zulmira tem o compromisso de fazer limpezas à segunda-feira. Quem lhe paga pontualmente o serviço tem a ingenuidade de imaginar que ela cumpre a sua parte do acordo. Mas engana-se. Porque a senhora Zulmira não percebe porque é que a terça-feira ou a quarta-feira não servem tão bem ou melhor. Porque é que não avisou? Pareceu-lhe que não fazia diferença.

O amigo Tavares é aquele que liga sempre dez minutos antes a dizer que, afinal, não pode vir ao jantar. Que ele próprio convocou. As desculpas que oferece, na sua opinião, são reparação bastante. Quem fica pendurado não sabe se está mais enfurecido com ele, ou consigo próprio por ter caído, novamente, na esparrela.

E é isto! Agora multiplique por dez milhões de portugueses, mais coisa, menos coisa, e tem a explicação para o PIB, a dívida, a baixa produtividade nacional e o que mais houver por entender.


Há outras epidemias para lá da gripe e do coronavírus. A do desplante com que se falham compromissos é uma delas.