CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 CRÓNICA ISABEL STILWELL. DEVIA EXISTIR UM DIA DOS PADRASTOS?
Publicado em: 18/03/2022
Não pode ser por acaso que o Dia do Pai se celebra no dia de S. José, o melhor dos padrastos. Desconfio que a explicação está na consciência de que um bom pai é sempre aquele que adota uma criança, ou seja, que a torna verdadeira e incondicionalmente sua. Parece complicado, mas não é, pelo menos para todos aqueles que sabem que amar e criar um filho é muito mais do que uma questão de ADN.

S. José, rezam os Evangelhos, fê-lo na perfeição, cuidando do filho da mulher que amava como se fosse seu, velando por ele, mesmo quando implicou fugir e refugiar-se num país diferente; ensinou-lhe a sua profissão de carpinteiro, afligiu-se quando reparou que não o tinha ao lado naquele dia em que foram ao Templo, e sim, também, quando não se coibiu de o repreender por ter desaparecido sem avisar.

Não devia ser fácil ser padrasto então, mas suspeito que hoje ainda se tornou mais complicado porque implica coexistir com um pai biológico que se mantém felizmente bem presente e ativo na vida dos filhos; porque muitos dos padrastos são também já pais, e à nova família somam-se novos bebés — aos meus e aos teus acrescentam-se os nossos. Ser capaz de, no meio de tudo isto, tornar-se numa figura de referência na vida dos enteados, é um feito. Um feito que muitos conseguem cumprir de forma extraordinária.

E são cada vez mais os aprendizes. Dizem-nos as estatísticas que cresce todos os anos o número de homens que enfrentam o desafio de viver com os filhos da mulher — ou seja, 78% das famílias recompostas são "famílias de padrasto". E sabemos, também, que dos 84.426 mil bebés que nasceram em 2019, quase 13 mil tinham já meios-irmãos, filhos anteriores do pai ou da mãe. Posto isto, qual é a receita do sucesso? Fomos perguntar, e aqui ficam sete segredos dos bons padrastos.

1. Uma enorme empatia pelos enteados. Conseguem colocar-se no seu lugar e entender que é preciso tempo para conquistar o coração de alguém, mais ainda quando é uma criança/adolescente, necessariamente de lealdades divididas.

2. Uma enorme empatia pela mulher, mãe daqueles filhos, evitando colocá-la entre a espada e a parede. Tendencialmente ela defenderá os filhos das queixas do padrasto, mas também se desgastará a zangar-se com eles, na ânsia de que se esforcem para ser mais "simpáticos" para com quem ela escolheu viver. O que só agrava a tensão e a culpa de todos.

3. A capacidade de se adaptarem ao modus operandi daquele "clã" sem, no entanto, cederem em tudo, ou aceitarem um lugar subalterno. Com calma, e com tempo (pelo menos dois anos), aos poucos a nova família cria uma identidade própria. E todos se vão sentir em casa. Até lá, muita paciência.

4. A inteligência e sensibilidade necessária a cultivar uma relação pessoal e intransmissível com aquela criança/adolescente, procurando um território genuinamente comum, seja uma paixão pelo futebol ou pela cozinha, pouco importa.

5. Resistir a competir com o pai biológico, investindo num "nicho de mercado" onde possa ser uma mais-valia real na vida dos enteados. Engolir os sapos que for preciso, também ajuda.

6. Ser capaz de gerir dentro de si o ciúme que acabará por surgir à medida que a relação com aquelas crianças/adolescentes se tornar mais próxima, mais de filhos. Gerir o ciúme e a frustração, porque haverá momentos em que desespera não ter mais controlo sobre a vida daquela criança, nem poder tomar decisões que se acreditam serem as melhores para ela.

7. Reservar tempo para o casal, para que ambos não esqueçam porque é que se meteram nesta carga de trabalhos. E ainda, porque a) tudo o que as crianças não precisam é de mais discussões e conflitos, b) tudo o que não querem (por muito que pareça o contrário) é passar pelo doloroso processo de uma nova separação e c) se perceberem que consegue fazer a mãe feliz será meio caminho andado.

A recompensa vão recebê-la à medida que os enteados crescerem e lhes mostrarem, com cada vez mais naturalidade, o quanto gostam e dependem deles. Afinal, quando também os adotarem senão como pais, com o mais perto de pais que é possível.